Púrpura secreta

Sábado, Julho 31, 2004

uma mãe especial



Grávida de um bébé especial - Descobri-o hoje e rendo-me, calada, ao amor incondicional desta mãe corajosa e feliz.

utopia?

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A nossa humanidade

Quando não deixarmos tudo nas mãos dos políticos
e os despojarmos de todas as auréolas míticas,
quando afirmarmos, convictos, que somos todos iguais
e ninguém nos diga que o axioma é falso,
quando resolvermos os problemas sentados a uma mesa
e, recusando a violência, aceitarmos o diálogo,
quando nos unirmos todos, se é um doido quem manda,
e o internarmos decididos, em menos de uma semana,
quando as pessoas souberem de facto amar o seu próximo,
seja negro ou chinês, esquimó ou argelino,
então teremos alcançado o privilégio
da plena humanidade e verdadeira democracia.



Francesc Vallverdú
n. 1935

Sexta-feira, Julho 30, 2004

recuo uns anos e...

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Vi incêndios à distância de dois montes no horizonte, os montes que se vêem da casa dos meus avós. Ouvi, tão perto, as sirenes dos carros de bombeiros a inquietar a noite, vi as labaredas subindo ao céu e devorando mato, vinhas, árvores.
E, no dia seguinte, a paisagem triste de tão nua.

Quinta-feira, Julho 29, 2004

o gato e o rato



Up and down, em cima e em baixo;este template não me deixa descansada sobre a sua estabilidade. Os links dos blogs estão quase a fazer a curva para mudar de página e eu aqui a encher chouriços sobre isto.

Quarta-feira, Julho 28, 2004

le plus profond c'est la peau

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Em jeito de partida para férias, o jpn de Respirar o mesmo ar escreveu este texto belíssimo que não resisto a convocar aqui:


O virtual é tão real como a tua pele. Aliás, se a tua pele não fosse tão virtual ou mais como o teu holograma não chamaríamos à pele, pele. Poderíamos dizer película, revestimento, camada, epiderme, mas pele não. Pele é um eco virtual que a existência desse véu que te cobre o corpo enuncia. Pena é que ao fim do cansaço fique com a ideia de que tudo este corropio não passe de um vicio e que tu - tu, enquanto pessoa, o tal ser biopsicossocial que tu e eu e todos nós também somos - ficas mais longe, enredada em múltiplos espelhos convexos que nos atiram para um jogo do gato e do rato que é um delírio infindável.



jpn

Terça-feira, Julho 27, 2004

para um amigo

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Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.


António Ramos Rosa



Um beijo para ti. Noite serena.

Darfur, Sudão

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Sudão, Darfur.Comunicação Social. Mails. Blogosfera. Rua da Judiaria. Darfur.

Permito-me copiar um texto:


A crise humanitária de Darfur – o genocídio e a limpeza étnica que vitima a sua população negra– tem sido amplamente documentada (ver Darfur Humanitarian Emergency - Satellite Images), mas a reacção lenta e parcimoniosa da comunidade internacional parece provar uma vez mais o absoluto fracasso das suas instituições – especialmente daquelas criadas para evitar situações assim.
Ironicamente, os Estados Unidos foram o primeiro país a reagir aos acontecimentos, tentando por em marcha as pesadas roldanas da burocracia diplomática da ONU. Mas é claro, depois do fiasco do Iraque, das armas de destruição maciça que nunca existiram, do unilateralismo de Bush, da arrogância de Rumsfeld, ninguém lhes deu ouvidos. Só agora se começa a acordar.
(...)
No que diz respeito à opinião pública, a maior crise humanitária da actualidade continua ignorada. Na blogosfera portuguesa, Francisco José Viegas, no Aviz, e Bruno Sena Martins, no Avatares de um Desejo têm rompido o silêncio, chamando a atenção para a catástrofe com posts bem reflectidos. Mas é preciso mais.

Nuno Guerreiro

É preciso muito mais. A consciência política e sobretudo cívica actuantes. Isto é tudo muito bonito como declaração de princípios mas que fazer, individual ou colectivamente para acabar com estes crimes que impávida e serenamente os senhores do povo e da guerra perpetram?
Temos exemplos de sobejo por esse mundo fora nos últimos 50 anos. Exemplos que foram deixando a semente do ódio e do poder ao invés de serem irrepetíveis e a não seguir.
A Declaração dos Direitos Humanos tem de ser - é-o naturalmente e por direito! - superior ao despotismo de governantes que decidem dizimar as etnias erradas de serem.

Lembro-me das sms a convocar manif's e dos seus motivos. Vem-me um sorriso aos lábios.

Segunda-feira, Julho 26, 2004



Gatos. Independência, simplicidade, busca da quietude, ternura, rebeldia, aventureiros devagarinho. É assim que os vejo. É assim que por vezes me vejo.

Domingo, Julho 25, 2004

escrever

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Gostei da frase escolhida pelo memorial do convento.

Devemos escrever para nós mesmos, é assim que poderemos chegar aos outros

Eugène Ionesco


Nem mais.

minha sobrinha, um poema

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Este blog tem mais uma razão para ser cor de rosa: daqui a uns meses nasce um poema, seu nome
Maria.

Quarta-feira, Julho 21, 2004

Para a Ma

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Ma, querida, boa sorte e muita genica para a recta final da tese!
beijos de Lisboa para onde quer que estejas agora;)

Terça-feira, Julho 20, 2004

a pequena flor do (im)possível

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A roupa para passar a ferro que aguarde. 
Tomava há pouco café com a minha amiga e entre a vasta temática feminina de paleio, chegámos à conversa de onde se parte, desde a adolescência irrequieta de paixões assolapadas, inquietas e para sempre. 
Pergunta-me ela às tantas, Não achas que estamos mais desiludidas hoje que quando tinhamos 18 anos, em que todos os sonhos eram possíveis?
Responto-lhe prontamente, tão prontamente como se não me sentisse também um pouco defraudada pelas promessas da vida, Não é bem desilusão, sinto-me é mais consciente, mais exigente e disposta apenas a reciprocidades e amores inteiros, quando tiverem de ser.
Detesto lugares comuns, frases feitas que embora algumas (muitas) tenham a chancela do tempo, são de certo modo muletas, repositórios de verdades sempre à mão para o caso de. Mas não consigo deixar de ver como minha esta ideia mais que comum: O tempo, em troca dos anos que nos rouba  oferece-nos um estrito critério de escolha, que se refina, cada vez mais. É esta também uma forma de consciência. Não desilusão. Desilusão seria acreditar que os divórcios nos tiram a capacidade de amar e confiar, que os homens são todos iguais (que são), que o tempo nos escorre pelas mãos sem apelo nem agravo e que os sonhos não são possíveis.
Da longa flor da adolescência ficou-me esse reduto inexpugnável de fé, esse mundo melhor interior e exterior a mim, essa não-desilusão ou consciência crítica do amor ou "a pequena flor do impossível" de Gilbert Bécaud.
Passo a roupa amanhã.
 
 
Som de fundo: Rodrigo Leão em 'Cinema'.
Lindo.


Segunda-feira, Julho 19, 2004

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A minha avó paterna faria ontem, 18 de Julho, 89 anos. Tenho saudades dela há 4 anos mas desde então sei e sinto que ela está bem, a zelar por nós e, muito importante, não sofre - e isso dá-me uma paz imensa. Uma noite destas sonhei com ela e acordei feliz, tão real e igual à vida o sonho foi. Por momentos tive-a de volta.
Um beijo, avó!

Domingo, Julho 18, 2004

nada de novo

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Lia o Ecos da Província a propósito da insensibilidade ao sofrimento alheio que acabamos por desenvolver, seja porque é constante e avassalador, seja para nos protegermos. E o comentário que li e aquele que agora faço vem a propósito da anestesia que 'sentimos' quando lemos ou vemos notícias sobre guerras, acidentes, enfim, sofrimento quase em directo. 'Nada de novo'.  Pois não. A nossa capacidade de indignação e de choque é cada vez mais tolerante.
 
 
PS: E com isto me veio à memória o livro de Susana Sontag 'Olhando o sofrimento dos outros' que se centra na banalização que o sofrimento adquire, pela forma como é despudoradamente escalpelizado pela Comunicação Social. Não o li, mas o tema, não sendo inédito, é pertinente. Aliás, ainda há pouco, na tv, enquanto via um pouco de 'Os Simpsons' , série que deveria ser inócua, no bom sentido, deparo-me com cenas violentas de sangue (!!), perpretradas por golfinhos (!!) e dirigidas aos humanos. Várias leituras se podem fazer daqui, pois...


 
 

"Lac de Pushkar"
by Gilles Murat 
 

Sábado, Julho 17, 2004

'então adeus', disse ele

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Estava aqui eu a dizer mal da minha vida no que aos blogs que linkei diz respeito, que levaram sumiço pelas minhas artes de experimentar templates, e vagueando pela blogosfera para ver como páram as modas,  vejo que o JPT decide escrever 'então adeus', que o WR considera reformular o conceito inicial do blog, que meio mundo anda entediado dos blogs, será do verão, essa silly season que não nos inspira para muita contemplação, mas para o descanso da mente e do tédio quotidiano (e nas férias inventam-se outros tédios, mas isso são outros 500, como diz o Zé). Mas não me convenço que o jpt vai embora, ele que 'conheci' daqui, neste mês em que aqui ando e de quem aprendi a gostar; a inteligência incisiva, a ironia, a simplicidade humana que perpassava (perpassa, não quero pensar que não 'é'), a identificação com algumas posições,  a forma apaixonada e directa como se exprime, cativam-me. Bom, mas cada um sabe de si, e acho que não devemos pedir a ninguém para ficar. 'Podemos'  pedir (tenho de ter cuidado com eventuais trocas de letras que me podem arrasar a reputação), porque gostamos, porque vamos sentir saudade de ler, porque ficará em seu lugar a ausência.
Enfim, nada é eterno, tudo muda e temos que aceitar as mudanças e as decisões das pessoas, isto agora é o meu lado existencialista a dar sinal de vida. Enfim, enfim.
E eu, que faço eu aqui? Eu e o meu blogue xpto-samallsize, sem linha editorial definida (cómica expressão a aplicar aqui...), com os meus devaneios poéticos, existenciais ou outros, ou nenhuns, para que quero um blog? Para ser lida? Para dizer que tenho um blog? Para arranjar um sítio onde coloco e deixo retalhos daquilo que me emociona, me faz pensar? A quem interessa? Não me digam que escrevemos só para nós; todos nós queremos ser lidos, às vezes até gostamos de ser apreciados. Será isto uma ilusão mesmo? Uma ilusão de que estamos próximos uns dos outros, mediados apenas por um computador? Será uma ilusão este interagir com o outro?Estaremos próximos, faltando aqui o olhar, a presença, o gesto?
São naturais estes pontos da situação, este repensar o sentido do que somos, do que fazemos, não esquecendo que esta forma virtual de comunicar, tendo sofrido um crescimento enorme, ainda é recente, e ainda nos estamos a adaptar a estas formas de chegar aos outros.
Bolas! 'Então, adeus, dizes tu', eu prefiro dizer 'até já', mesmo que isso não seja verdade. Afinal não somos nós que procuramos a ilusão?

Quarta-feira, Julho 14, 2004

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É pouco, é vasto, é escasso e é tudo.

Pablo Neruda

Ferreira Gullar

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Traduzir-se



Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Ferreira Gullar




Terça-feira, Julho 13, 2004

Segunda-feira, Julho 12, 2004

um por ano

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Espero que para o ano que vem, avô, continues a ser o primeiro a telefonar-me para me dar os parabéns! Mais um, pois - servidos de uma taça de champagne? :)

Domingo, Julho 11, 2004



"Girl with a Pearl Earring",
c.1665
by Jan Vermeer



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E o senhor José que me chamava
- Menino
e era muito mais elegante de alma do que eu, de uma delicadeza
ia escrever aristocrática, escrevo aristocrática
que não possuí nunca: sou feito de cardos e há palavras que deixei secar dentro de mim ou a vida secou. Claro que vou escrevendo, vou respirando, até me acontece, às vezes, orvalhar-me. Mas escondo. Dantes fechava-me à chave na casa de banho para não me ver no meu desespero. Depois abria a porta e saía a assobiar. Há alturas em que assobiar custa imenso.



António Lobo Antunes

apenas o que interessa

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É quase noite agora. Não está ninguém comigo, os sons começam, a pouco e pouco, a transformar-se. Que pena não existirem oliveiras nesta rua. Descobri uma, num canto do hospital Miguel Bombarda. De vez em quando paro dianto dela, encosto a mão ao tronco, a oliveira chama-me
- Menino
distingo perfeitamente quem me chama
- Menino
não senhor doutor é claro, qual doutor, nunca fui doutor nem quando vagamente o era, chama-me
- Menino
e não sei responder-lhe. O senhor José saberia. De modo que finjo que não dou por nada, demoro-me por ali um bocado, por acanhamento, por delicadeza, vou-me embora. Há-de chegar um dia em que não me irei embora. Tu, que não conheço ainda ou imagino que não conheço, ajuda-me a ficar. Ocupo pouco espaço, quase não faço barulho, nunca grito, não incomodo ninguém. Leva-me contigo e ajuda-me a ficar. Tenho a ternura simples mas aos nós. Como as tuas unhas são mais compridas do que as minhas desata-me isto tudo. Mãos impregnadas de nuvens, ossos suaves como o leite, vagarosos, certeiros. É bom nascer no instante em que o ar é mais frio que a água. Trouxe-o aqui no bolso para ti. Há-de haver, nalgum sítio, a minha última casa e o senhor José ao longe
- Menino
no terceiro minuto a partir do crepúsculo, não no segundo nem no quarto, a inventar uma flor. Se não te importas conta-me uma história em que as pessoas se casem no fim.


António Lobo Antunes



Um dos escritores portugueses que mais me toca na alma. Sinto-lhe a intuição primordial, básica porque essencial, leve e densa. Enigmático, é ele quem diz que não devemos 'ler' os seus livros, mas mergulhar neles com uma chave secreta, a nossa.

Na tempos livres uma cruzada: deitar fora o que já não me acrescenta nada. Revistas, papelada, alguns objectos, tralha amontoada porque um dia. Tentar (digo ainda tentar) ordenar a cabeça, definir prioridades, alinhar as ideias, arrumar o meu espaço vital, interior e exterior.
Nesta quase missão, com um razoável cuidado em não enviar para o contentor nada de que goste muito, vou fazendo o crivo do que merece ficar num qualquer sítio meu, para que a memória o visite quando sentir saudade. Restará o que for mais importante no hoje, esse hoje que é todo o tempo com que posso contar.


aforismo

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"Uma expressão concisa de doutrina ou princípio ou qualquer verdade geralmente aceite como tal, vazada numa afirmação definita e memorável."

Sábado, Julho 10, 2004

"escrevo?"

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Gostei do que li em Espelhos velados.


o que te pede o blog?
o blog pede-me que escreva. resisto o melhor que posso. porque
não sei escrever.
e também porque não devemos escrever se não for importante; se não for suficientemente importante. é a primeira condição. mas nunca sabemos. não se pode saber.

[escreve: é melhor arriscar.
talvez me leias.]

[escreve: o silêncio é a origem de todos os equívocos.]

a I. (que eu pensava que tinha cinquenta anos) diz-me que um blog deveria ser como um livro de bordo. e pergunta-me: o que te pede o blog?

o blog pede-me palavras que aproximem. escrevo?


Alexandre

Sexta-feira, Julho 09, 2004

Desapareceu a lista dos links...

Quinta-feira, Julho 08, 2004



Lute Player
by Caravaggio


Lindo. Procurava a calma que um dia agitado tem e repousei aqui, ouvindo esta música.

memória

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A memória é a nossa escola da vida. É a única verdadeira defesa contra a traição e o abandono (...).
Tal como o Adriano, de Yourcenar, também eu lamento que a memória da maior parte dos homens seja um cemitério abandonado, onde jazem, sem honra, os que deixámos de amar (...).
Como Adriano, eu quero essa fidelidade. Mais: devo a mim essa fidelidade. Não posso negar o que vi, o que cheirei, o que senti, o que amei. Não posso negar que fui feliz, se fecho os olhos e sinto outra vez todos os instantes felizes. Não, não posso negar que atravessei rios contigo, que te ensinei o nome das estrelas, que ouvimos juntos os pássaros e o vento nas árvores, que caminhei na rua de mãos dadas contigo (...). Enquanto me lembrar, estarei vivo, porque esse é o mais certo indício de vida. Eu estarei vivo e, vivendo, não deixarei morrer quem caminhou comigo, ao longo do caminho.


M.S.Tavares

Miguel Sousa Tavares

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Miguel Sousa Tavares.
Descobri-o há uns dias, num livro editado há uns anos e que é o resultado de um conjunto de crónicas sobre a vida: 'Quem te deixou morrer, David Crockett?'
O que me deixou intrigada (não o imaginava assim) foi a sensibilidade, a força de escrever, o bem escrever, o saber contar uma história, prendendo-nos do princípio ao fim. E o facto de descobrir uma pessoa sensível, profundamente humana, simples e despojada revelando-se atrás de uma aparência arrogante e impenetrável, é assim que o vejo, é essa a máscara que ele porventura escolheu usar.
Agora estou curiosa em ler 'Equador'.
Descobrir alguém de quem se gosta é muito bom.

Quarta-feira, Julho 07, 2004

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Incursões na blogosfera. Farto-me de rir com os marretas e os jaquinzinhos :) Inteligente e certeiro o olhar, irónico qb. Uma delícia.

Noutro registo, aquele que primeiro 'conheci' como poeta: o Francisco José Viegas. De uma ternura profunda de se ler esta saudação: 'vida que agora te começa'.
Parabéns aos papás da bébé Laura:)


E as palavras sábias de quem tão bem sabe tocar nas palavras...


Não há enganos entre nós, só as coincidências
explicam os afastamentos que nos unem.
Ao melhor amigo não conto o que me encanta
e transforma. Entre nós, que somos tristes e
leves, as longas baías de Inverno têm pouco a
dizer. De tudo isso sabemos um pouco,
quase nada, enumeramos razões
e receios, os princípios, nisso esgotamos
a brancura, alguma coisa, algum tempo.

Não há enganos. Não há nada mais,
o futuro.


Francisco José Viegas


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De candeias às avessas com o blogue. Agora a lista dos títulos dos posts e dos links deslocou-se para baixo.
grrrr...

Terça-feira, Julho 06, 2004

o que é meu para sempre

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Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água do rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto, eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.



Miguel Sousa Tavares
'Não te deixarei morrer, David Crockett'

Segunda-feira, Julho 05, 2004

coincidências - será?

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É uma linguagem estranha, a das coincidências, mas nós esforçamo-nos por aprendê-la como se aprende uma língua: crescemos dentro dos sinais, à procura do seu sentido. No fundo, as consequências são o pânico de uma iliteracia - suspeitamos que a vida nos pode passar ao lado se não soubermos lê-la. Então, lemos, desenfreadamente. Mesmo em folhas onde nem sequer o acaso escreveu algo - mesmo sem haver folhas. Mas isso só saberemos mais tarde, se formos honestos - ou se formos felizes. Uma coincidência só nasce se precisarmos dela. De outro modo, nem reparamos.

Ou esquecemos que algum dia tropeçámos nela.


Faíza Hayat

papoila canta

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O blog da papoila tem um som lindo. Quem canta? A descobrir rapidamente.

proteger as crianças

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Lia a Um pouco mais de azul e a Partilhas no apelo que é feito para que se denunciem situações de exploração infantil, que são mais que muitas, infelizmente.

É um problema que, sei bem, não se resolve com um telefonema para o Instituto de Apoio à Criança, pois é vasto e de muitas implicações, mas há que dar alguns passos e fazer o possível. E o possivel para cada um de nós pode passar por nos lembrarmos de fazer um telefonema.

Simples, não é? Como dizia o poeta: 'O caminho faz-se ao andar'.

IAC - 21 7931617



Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.


Ruy Cinatti

Domingo, Julho 04, 2004

Gosto desta bandeira

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Sábado, Julho 03, 2004

blogs e recuerdos

Oiço a voz belíssima e clara da Cesarea Évora, que me acompanha as incursões na rede nacional da blogosfera. Mundo novo para mim, a desbravar com curiosidade infinita. Há de tudo um pouco, cada blog tem um registo próprio, de carácter generalista ou com o cunho mais pessoal e intimista, de humor, de política, de poesia. Não sei qual é o meu registo mas também não me quero preocupar com muito com isso. Não tenho "linha editorial definida", expressão que a Catarina, salvo erro, do 100nada, utiliza e que me faz sorrir. E quero partir quando me apetecer, lembro-me agora do Francisco José Viegas, do Aviz: "Quando, um dia, acabar, será como a chuva que vem de repente ou se afasta sem darmos isso; nada de cerimónias. Estamos todos de passagem pela rede e não vale a pena filosofar sobre o assunto."

Morreu Sophia, com 84 anos. Sophia e Eugénio de Andrade foram quem me iniciou na poesia e me fizeram descobrir o sentimento das palavras. Depois fui por aí fora na descoberta, Jorge de Sena, Mourão-Ferreira, O'Neill, Ramos Rosa António Osório, Maria do Rosário Pedreira, Daniel Faria, uma maravilhosa promessa cumprida em apenas 28 anos de vida. E tantos,tantos mais, por aqui e pelo mundo fora.

Há uns anos, nos meus tempos de adolescente passavam na televisão muitos filmes clássicos, que me valeram ter conhecido a arte de muitos actores, nomes grandes do Cinema. Hoje raramente são apresentados na tv, excepto em ocasionais ciclos de cineastas. Marlon Brando, Paul Newman, Montgomery Clift, James Stewart, James Cagney, Bogart, Bacall, Cagney, Liz Taylor, Robert Mitchum, Bette Davis (aqueles imensos olhos azuis)fazem parte dessa lista enorme de actores. Destes, só a Lauren Bacall e a Liz Taylor estão vivas. Hoje partiu também Marlon Brando, excelente actor, protótipo do tipo duro e doce, que era, a par de Paul Newman, um dos homens mais bonitos do cinema. Uma mulher repara nestas coisas, pois está claro :)



"Quando eu morrer, voltarei para buscar todos os instantes que não vivi junto ao mar"

Sexta-feira, Julho 02, 2004

Sophia



E em vão busco a tua face antiga
És sempre um deus que nunca tem um rosto

Por muito que eu te chame e te persiga.



Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919/2004)

envolvência

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Que tem a poesia que me faz sentir leve, serena, inteira? Que magia me envolve quando ela me lembra que eu também sou assim, leve, serena, inteira?
O caminho do poema leva-me a descobrir também o meu caminho. Navego nas palavras e habito-as, maravilhada, como elas me habitam no abraço sereno que protege.